Pastoral

Creio na necessidade de evitar pelo menos duas posturas diante do mal

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1. Não podemos fugir.

Colocar o sofrimento na conta dos mistérios insondáveis da divindade, não resolve.

Quando nos vemos em acidentes trágicos (aleatórios), evitar a realidade parece ser um consolo.

Dizer que infortúnios são mistérios, e que a melhor resposta é resignar-se, acaba cobrando um preço alto anos depois.

Fé não significa aceitar o inaceitável. Em muitos casos, o sofrimento nos vem como resultado da ação de pessoas, governos e sistemas perversos.

A passividade de afirmar que Deus tem seus motivos, pode perpetuar a maldade. Demolir sistemas que promovem a morte, requer ousadia.

Jó ensina e indagar e a resistir, internamente, o sofrimento. Alguém já me provocou: “De onde vem sua petulância de querer repensar o que a teologia já sistematizou?”

Não me considero petulante. Creio, apenas, que não é pecado enfrentar o que dava uma falsa sensação de segurança.

Nossas convicções devem ser testadas, exatamente, na dor. Fé suporta questionamentos difíceis.

Se alguma certeza não se sustentar diante do feroz inquiridor, talvez ela não mereça continuar.

Perguntas podem suscitar novas perguntas e com elas, mais dúvida. A dúvida fortalece a fé.

Mesmo que continuemos sem respostas definitivas, vale aprofundar nossas angústias.

Leibniz afirmava que a percepção de um Deus que encobre seus atos, o torna pior do que Calígula. O imperador romano escrevia suas leis em letras minúsculas e mandava publicá-las em lugares tão altos que ninguém as conseguisse ler.

2. Não podemos tentar camuflar nossas dúvidas com frases piedosas.

Repetidas vezes o debate sobre o sofrimento humano se esvazia antes que se consiga expor os conteúdos que nos inquietam. Alguns têm medo de magoar Deus e se encolhem. Outros evitam brigar por temerem que a indagação mais aguda os fará apostatar da fé.

As verdades continuam, assim, estabelecidas por mero sentimentalismo. Essa piedade também pode acalmar diante da dor, mas ferverá por anos até explodir como ódio contra Deus.

Jesus, ciente dos primitivos arranjos teológicos do judaísmo, descartou a lógica de que só os obedientes eram abençoados. Ele admitiu que bons e maus são alvos do amor de Deus.

Ele também advertiu os discípulos sobre tribulações, perseguições e traições. Se lírios e pardais lembravam o cuidado de Deus, guerras e fome não deixariam esquecer o tamanho da iniquidade humana.

Ele mostrou Deus não como o castigador celestial, mas como nosso amigo.

Com ele aprendemos que viver é ao mesmo tempo magnífico e perigoso.

 

(Texto do Pr. Ricardo Gondim sobre o sofrimento)

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